Página "A ilusão dos sonhos" VI

(...)Nada do que possa dizer ou escrever conseguirá transcrever o que se sente quando alguém a quem confiámos a nossa vida nos larga a mão e nos perde no meio do breu e da sua serena impavidez.
Sentei-me e na imensidão da incerteza senti uma paz indescritível, creio que este sentimento que percorria todo o meu corpo não era mais do que uma espécie de anestesia que impossibilitava qualquer atitude que pensasse tomar naquele momento.
Perguntei-me o porquê e culpei-me. O que fazer agora?
O meu mundo deixou de ter sentido, o que fazer, o que pensar?
Sonhamos com o amor ideal, aquele alguém que não é mais nem menos do que a nossa outra metade que só faz sentido quando unida e quando finalmente a encontramos porque motivo nos é retirada? Perguntas às quais não sei, responder.
O amor que no unia era de uma força inexplicavelmente avassaladora digno de um romance épico, onde a velha máxima de que os opostos se atraem, não tinha lugar e nem tão pouco fazia sentido. Seres completamente compatíveis, unidos e companheiros, amantes cujo sentimento foi construído sob um inabalável apoio e compreensão mútua no qual não cabia qualquer tipo de sentimento negativo.
Tinha finalmente encontrado o amor por quem esperei durante todos estes anos, aquele por quem me apaixonei mesmos antes de conhecer. Como posso descrever o nosso amor?
De uma cumplicidade sem precedentes, tendo sempre a certeza que por mais que tudo à minha volta se desmorona-se, era na protecção do seu peito que me acomodava durante o tempo necessário até me recompor dos tombos da vida. Era aquele que me fazia sorrir de forma despreocupada preenchendo assim o vazio de toda uma sala. Era aquele que acalmava a minha dor e me dizia que tudo iria correr bem porque ele estava comigo. Era aquele que me surpreendia todos os dias, fazendo de cada amanhecer uma nova e terna experiencia. Era quem me amparava quando por momentos perdia as forças e pensava em desistir de lutar nesta batalha desigual. Era o ser perfeitamente desenhado à minha medida, cujos corpos se encaixavam de forma incrivelmente mágica e nos faziam sentir num só corpo.
O que mais podemos desejar, quando por milagre encontramos a nossa outra metade, alguém que pensa e age da mesma forma que nós, alguém com quem nunca tivemos um desentendimento por mais fútil que este fosse, alguém que nos impulsiona a seguir em frente ao invés de nos corta as asas dos sonhos com o seu egoísmo apenas por medo de nos perder.
Alguém que tal como eu, amou de forma insaciável e fervorosa sempre com o sabor da liberdade na linha do horizonte, alguém que sabe que amar não passa por usurpar a vida do ser com quem partilhamos alegrias e angústias, mas sim partilhar e aliviar o seu sofrimento, prolongando o seu eterno e caloroso sorriso. Amar é um estado de espírito constante que permite ver e sentir o lado mais belo de todos os que nos rodeiam, pois este sentimento tem o poder de despertar o mais lindo dos sentimentos no coração do mais duro frio e impenetrável mortal.
Amar é simplesmente lutar pela felicidade de quem nos faz felizes, assim, lutamos também pela nossa.
Quem disse que o ciúme era uma prova de amor, certamente nunca amou, como pode alguém que ama outra pessoa sentir ciúme? Este sentimento é uma fusão de tantos outros num só e a confiança faz parte integral desta receita mágica. Se amamos, confiamos porque motivo então, duvidamos mesmos que por instantes da pessoa com quem escolhemos passar o resto dos nossos dias? Prova de amor? Poderá ser tudo menos aquele que nos invade queimando toda a nossa essência, quiçá, o temível sentido de posse, que não passa de uma terrível e incurável doença do foro psicológico disfarçada de simples ciúme.
Os dias que se seguiram nem os lembro, vivi-os como se um estado vegetativo me fosse induzido, a intensidade da dor era tamanha que nada do que me rodeava me despertava deste estado de hipnose protectora.
Algum tempo se passou e a dor continua em mim, fazendo agora, parte daquilo que sou. Nesse dia parte de mim morreu e partiu contigo e por mais tempo que passe por entre nós, nada irá trazer o que me foi indevidamente roubado, por mais que lamente não tenho capacidade de me regenerar até porque esse meu lado pertencia-te por direito, era teu, era a tua outra metade.
A cada dia que passa, a cada dia que não te vejo, que não te olho, que não sinto o teu calor, o teu cheiro, mais um pouco de mim perde força e refugia-se num subconsciente que me visita ao cair da noite, eu não sinto dor com estas pequenas mortes, até porque já não sinto dor esgotei esta fonte interior, contudo as estrelas são testemunhas destas constantes perdas, a lua vê estas suaves luzes abandonarem o meu inerte corpo, a noite minha fiel guardiã embala o meu ímpio descanso acalmando o meu sofrimento e a ela agradeço por faze-lo num estado inconsciente e indolor(...)