Página "A ilusão dos sonhos" VII

(…) Apesar de tudo, todos os dias te espero e anseio sentir a protecção que me proporcionavas, agora Só a raiva e a incompreensão me sustêm e me impedem de correr na tua direcção.
Por mais ridículo ou até infantil que possa parecer, acredito no amor feito à minha medida, como se de uma peça de roupa se tratasse.
A pessoa perfeita, terna, doce, carinhosa, alguém que me proteja nos seus braços quando chorar, quando acordar no breu da noite, alguém que me dê apoio quando precisar, alguém que me chame à atenção quando errar, alguém que me compreenda.
Quero apenas a outra metade de mim, aquela que me falta para por fim conhecer a tão falada felicidade. Como disse Madre Teresa de Calcutá “ A solidão é a mais terrível das pobrezas”.
E sinceramente acredito que assim seja, de que nos vale percorrer todo este caminhos sozinhos? Por mais que digam que mais vale estar só que mal acompanhado, não acredito que o autor de tal blasfémia tenha razão nesta afirmação, acredito sim, que se deve saber escolher aquele com quem decidimos passar o resto das nossas vidas. Não temos que partilhar as nossas alegrias e angustias com alguém que não nos compreende ou com quem não sentimos um possível desmaio ao aproximarmo-nos. Claro que existe, por vezes os nossos caminhos separam-se e quando se voltam a encontrar não nos é possível tocar a pele daquele por quem tanto esperámos e desesperámos. Não podemos ouvir o bater acelerado do seu coração quando encostamos o rosto no seu peito quente, não podemos sentir o queimar dos seus lábios, não podemos sentir a força dos seus braços na ânsia de nos perder de novo.
Quem escolhe este caminhos somos nós, mas não existem dúvidas de que esse amor existe, apenas o deixámos fugir, apenas sofremos uma dor surda e dolorosa numa vida que não nos pertence, vivemos os sonhos de outra pessoa, vivemos aprisionados numa ilusão que não é nossa e que nos priva do sono dos ímpios que nos tira a esperança a cada dia que passa, uma vida que nos consome as forças que nos rouba a vontade de viver uma vida que não a nossa, uma vida que nos destrói e à qual temos que obedecer por algum tempo.
E por fim quando finalmente os nossos olhos cruzam o olhar que nos perseguiu durante toda uma vida, a dor de sabermos que colocámos outra pessoa em seu lugar trespassa-nos o peito com a força e a destreza da mais hábil das espadas, a nossa alma escurece e perde-se num turbilhão de sentimentos e arrependimento impossível de descrever.
A nossa alma dói com tamanha intensidade que a dor chega a ser física.
O castelo que em tempos construímos desfaz-se agora em pequenas gotas de desespero, o sol da manhã que nos fazia sonhar não volta a nascer, as flores perdem o cheiro e a sua beleza iguala a angústia que sentimos dentro do peito e que faz o nosso coração bater de forma descompassada como se quisesse bombear apressadamente todo o sangue que percorre as nossas veias dilaceradas de dor.
Podemos culpar alguém pelo nosso sofrimento? Podemo-nos culpar a nós, podemos culpar a ânsia da “adolescência”, a pressa de querer viver tudo aquilo a que temos direito de uma só vez, podemos culpar a vontade arrebatadora de conhecer a felicidade e viver e sentir na pele todos os contos que acabaram com um final feliz. Sonhar com histórias de amores arrebatadores e impossíveis não nos faz mal algum, pelo contrário, faz-nos manter vivo dentro de nós o que à muito caiu em descrédito, o verdadeiro amor.
Aquele que só se vive uma vez, aquele que depois de o deixarmos fugir, nunca mais o teremos de novo junto de nós.
O tempo passa e segundo dizem alguns “sábios” é este o responsável por acalmar todas as dores que assolam a alma, no entanto esta ferida continua a consumir silenciosamente a nossa essência e alimenta-se egoistamente da pouca esperança que ainda nos resta deixando marcas irreversíveis da passagem deste sentimento.
Continuamos então a nossa vida, não de forma tão despreocupada, mas olhando o passar dos dias como um suplício, dias estes que se mostram uma eternidade, não queremos ouvir nada nem ninguém, desejamos não ter que falar, pois até este simples gesto requer um esforço desmesurado que nos desgasta violentamente, não sentimos qualquer necessidade de sorrir e a vida que outrora conhecemos perde a cor que aquecia os nossos dias, o cheiro que nos lembrava que respiravamos queima-nos as entranhas à sua passagem, a alegria que sentiamos a cada novo amanhecer vê-nos agora impávidos e serenos entregues ao sofrimento que nos invade.
Acredito que nada acontece por acaso e por isso todo o sofrimento pelo qual passamos tem uma razão de ser e um propósito para acontecer(…)