Página "A ilusão dos sonhos" VIII

(…)Aprendemos a viver com a dor que se apodera do nosso ser, percebemos que ela não irá embora e que as lágrimas que insistentemente nos lembram da sua presença começam lentamente a desvanecer por entre um e outro sorriso inicialmente forçado, mas que vamos conseguindo despoletar. O que nos resta? Entregar a nossa vida nas mãos deste vil sentimento que nos dilacerou os sonhos?
Contemplamos a quietude das águas embrenhados em memória que nos forçam a viajar pelo passado, sentimo-nos flutuar embalados pela saudade e desejando ardentemente que o curso do rio cristalino que se estende diante dos nossos olhos nos transporte suavemente na imensidão do seu embalo. Vagueamos pela sua margem enquanto o frio gélido nos massaja levemente a pele e nos sussurra ao ouvido que o sigamos e que o deixemos envolver o nosso corpo inerte e vazio de qualquer tipo de emoção, a tentação puxa-nos na sua direcção e a vontade que esta dor desapareça desperta em nós uma força desconhecida que por breves momentos nos assusta e à qual acabamos por ceder.
Os segundos que se seguem neste estado de inconsciência protectora tornam-se eternos fazendo-nos perder noção do tempo que nos foge a cada novo fôlego.
Despertamos desta protectora redoma que nos consumia sem que o percebêssemos, ouvindo uma voz terna e suave, que parece fazer nascer em nós um sentimento há muito enclausurado pela dor que nos invadiu indevidamente.
Esta voz, que grita o nosso nome de forma tão desesperada quanto meiga puxa-nos violentamente para longe da margem que abre os braços na nossa direcção para nos receber na profundidade da sua calmaria.
Esta voz que tão bem conhecemos toca a nossa consciência com a força do mais violento dos embates, reconhecemo-la e identificamo-la num vislumbre de recordações que nos invadem com a urgência da salvação e a força do sentimento que nos despertava da morbidez da dor traz-nos de volta à realidade que tanto queremos ignorar.
Apesar da desilusão causada o nosso corpo reage impulsivamente a esta atracção incontrolável que nos atormentava nos sonhos mais sombrios.
Por entre o breu da noite, envolvidos no tempo da sua ausência, a imagem disforme de uma delicada mão que nos suplica um regresso desta penumbra que nos consome, estende-se na nossa direcção, cedemos e o calor do seu ser preenche toda a nossa alma não deixando lugar para um simples pensamento, uma única reacção.
O regresso daquele que em tempos nos perdeu pelo caminho amparados apenas pelo sabor amargo da solidão, dá agora, sentido à palavra que tantos menosprezam, destino.
Recolhemo-nos a um retiro interior que nos permite analisar todas estas emoções vividas e perguntamo-nos…Será que esta pequena palavra detém todo o poder que envolve o seu significado?
(Acredito que apenas nós podemos quantificar a força dos nossos sentimentos, se o sentimos de forma arrebatadora é porque realmente alguma força superior e desconhecida guiou os nossos passos até ao seu encontro, uma força que tem como único dever juntar uma alma que vagueia separada em dois corpos e que só se encontrará na união perfeita destes dois seres predestinados à nascença).
Vivemos a ansiedade avassaladora que completa os nossos dias, desejando desesperadamente a chegada do dia em que a nossa essência se vai encontrar, a distância impede-nos o toque, mas o nosso coração bate suave na certeza de que esse toque vai acontecer sempre que possível for o nosso reencontro que ecoa além dos tempos.
Os dias passam agora de forma bem mais tranquila, sabemos e não nos perguntem porquê, mas sabemos que a nossa vida não faz sentido se for vivida só pela metade, é como se dormíssemos apenas 4 horas quando o que nos satisfaz são 8h, como se bebêssemos meio copo de água quando o que nos sacia é um copo cheio, é como inspirar profundamente e sentirmo-nos sufocados.
A nossa vida só faz sentido se este ser fizer parte integral de tudo o que nos faz feliz, de tudo o que nos faz sofrer, de todos os projectos importantes, de todas as vitórias, de todos os fracassos.
A sua presença acalma o nosso espírito, transmite-nos a tranquilidade quando desta precisamos, a sua presença faz-nos sentir que o mundo é demasiado pequeno para tudo o que sonhamos realizar juntos, queremos ser o seu porto seguro, queremos acalmar a sua dor, as suas angústias, os seus medos, queremos ser o motivo do seu sorriso.
Contudo, queremos insistentemente receber um voto de confiança, algo que nos ajude a perceber se vibramos na mesma faixa de apoio, de entrega, de confiança, de companheirismo, de puro sentimento.
Precisamos desta entrega da sua parte, precisamos realmente saber se a nossa presença é importante na sua vida, precisamos sentir que somos amadas, que não somos mais uma fugaz paixão, precisamos ter confiança neste sentimento que nos invade e que nos sossega as noites, que nos acalma os dias.
Precisamos sentir que é eterno, precisamos que este sentimento de efemeridade nos abandone e dê lugar a uma confiança inabalável de que somos um só ser.
Aterroriza-nos imaginar que o sofrimento do passado volte e nos arraste com ele mais uma vez, imaginamos ficar sem aquele que nos alimenta e perdemo-nos por entre recordações dolorosas que se mostram um verdadeiro atentado à nossa resistência, quer física quer mental, receamos ouvir as mesmas palavras cortantes, tememos mais um abandono, pois o nosso frágil corpo não aguentaria outro embate desta natureza, sofremos com uma possível separação, recusamo-nos a ficar longe da nossa fonte de vida, do ar que nos sustém, da força que nos impulsiona, do orgulho que sentimos naquele que nos acompanha nesta caminhada árdua a que damos o nome de vida (...)

Por mais dramático que possa parecer, descrevo apenas sentimentos comuns a todos nós, uns sentidos de forma mais profunda e dolorosa, outros por sua vez, sentidos de forma mais natural. Cada qual vive as situações da forma que lhe parece mais correcta, ou melhor, menos penosa. Não se trata de experiências vividas, mas de um processo pelo qual já todos nós passámos, independentemente da força com que o vivemos ou do tempo que levámos a superar.
Como costumo dizer (e acredito piamente que assim seja) “Nada acontece ao acaso, tudo tem razão de ser e para acontecer, seja qual for o motivo, seja qual for a lição que retiramos destas vivências”.
Os momentos menos bons pelos quais passamos, apenas servem para nos fazer crescer, conhecer, aprender, amadurecer, servem principalmente para nos tornarmos seres mais preparados, mais elevados, mais conhecedores da essência do ser humano, mais aptos e despertos a evitar o que poderá ou não ser prejudicial à nossa constante evolução.